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Quando a Masculinidade se Torna Tóxica

Hoje trago um tema que pode ser controverso, mas que é muito importante falar, a masculinidade tóxica. Vejo muitas vezes a expressão ”não todos os homens”…. mas em relação à masculinidade tóxica em particular sei que são todos os homens, e todas as mulheres, não que a exercem, mas que são vítimas dela. Quer saibam, quer não. 

Eu encontro-me com a masculinidade tóxica todos os dias. Desde muito pequena. Não sou vítima dela da mesma forma como um homem. Mas somos todos vítimas.

masculinidade tóxica não é a masculinidade no geral, é um conjunto de comportamentos que ensinamos aos nossos rapazes em relação ao que é ser ”um homem”. Pergunta a uma criança, menino ou menina, o que significa ser ”homem” e vão te dizer com alguma facilidade. Mas se perguntares por algumas características dos homens na sua vida que mais amam, então é bem provável que apareçam também outras descrições mais tipicamente ”femininas”. Existe muitas vezes uma discrepância entre a expectativa sobre a masculinidade e o que se realmente aprecia nas relações. Isso causa uma grande confusão para os nossos rapazes. E a razão pela qual a publicidade da Gillette é tão boa é porque ilumina toda esta problemática tão bem. O sofrimento das meninas, o sofrimento dos meninos. O sofrimento das mulheres, o sofrimento dos homens.

A minha primeira memória de um encontro com a masculinidade tóxica e assedio sexual é com um vizinho que comentou as vulvas das amigas da filha ao sairmos da sua sauna… Ele estava a falar com o meu pai. Lembro-me tão bem da cara do meu pai, da expressão no olhar, do desconforto tão óbvio. E lembro-me que ele fez de conta que não tinha ouvido. Mas ele ouviu. E eu ouvi. E nunca mais falamos do tema. Ainda hoje me lembro tão bem. Tinha uns 6-7 anos. Hoje tenho 42. São muitas histórias durante estes anos todos. Minhas e de praticamente todas as mulheres que conheço. Muitas. Desculpei muita coisa. Fiz de conta muitas vezes. Ri-me desconfortavelmente. Compactuei.

Entretanto tornei-me mais “ativista”. Percebi que deixar passar não é solução. Às vezes sou “chata”, “agressiva”, “incómoda”…. (e pergunto-me que adjetivos utilizariam para me descrever se fosse homem).

Mas, foi só em 2017, quando ouvi o “Pai Natal” num shopping mandar um piropo à minha filha adolescente, que prometi que nunca mais ficava calada. O senhor contratado para ouvir os desejos das crianças, num momento sem nada para fazer, de pé ao lado do seu trono, observando as pessoas, mandou um piropo do nada a uma miúda de 13 anos que estava a passar por ele.

Nunca mais.

E a promessa que fiz a mim mesma nem sempre é fácil cumprir. Às vezes ainda sinto que é mais fácil ignorar ou deixar passar. Às vezes sinto que pode ser perigoso reagir. E muitas vezes desejo que mais pessoas, principalmente os homens “bons” (os “não-todos-os-homens”), vivessem com a mesma promessa.

Cada vez que deixamos palavras, comentários e atos derivados da masculinidade tóxica passar, estamos a compactuar e estamos a propagar o assédio sexual e a cultura do estupro. Não fazer nada não é solução.

Quando um menino ou um homem sofre por causa da masculinidade tóxica, podemos agir. Quando uma menina ou uma mulher sofre por causa da masculinidade tóxica, podemos agir.

Podemos, e devemos.

Tenho dois rapazes. Há muitas coisas que faço e posso fazer para quebrar o ciclo da masculinidade tóxica. Mas resumidamente, digo lhes o seguinte:

  1. Não digam nada à uma mulher desconhecida que não diriam ao Zlatan Ibrahimović.
  2. Não façam nada a uma mulher que não gostariam que um homem fizesse a mim ou a vossa irmã.
  3. Chorem!

Algumas pessoas têm dificuldade em aceitar o termo ”masculinidade tóxica” tal como também a palavra ”feminismo”. Mas é precisamente por serem expressões provocadores que é tão bom as utilizarmos! Costumo dizer que enquanto estas expressões mexerem com as pessoas, precisamos delas. Que outra forma há de conseguir que as pessoas questionem as suas ações, os seus comportamentos e as suas escolhas, se não se sentirem minimamente provocadas e questionadas?

Mia

Mikaela Övén

Mikaela Övén